As doenças de sempre sob um novo olhar.

Começou por sentir dores de cabeça muito fortes e os olhos a latejar. Disse para si mesmo que deveria ser “falta de descanso”, afinal os sintomas eram tão gerais. Quando foi à farmácia medir a tensão, o farmacêutico julgava que o aparelho “não estava a medir bem”. João tinha as tensões muito altas e, até a médica de família, o alertou que já tinha visto pacientes com tensões mais baixas a sofrerem um AVC. O susto foi grande, porque nem sabia bem que doença era esta, mas agora, passados dez anos, tem as “tensões controladinhas”.

Chama-a de “doença traiçoeira”, porque“quando se manifesta já está num estado avançado”. Esta é a história de João Borges, de 50 anos, - um dos mais de dois milhões de portugueses que sofre de hipertensão arterial.

MAS QUE DOENÇA É ESTA?
Antes de mais, a pressão arterial é a força com que o sangue circula no interior das artérias. Quando essa pressão se eleva de forma crónica acima dos valores considerados normais, surge a hipertensão arterial. Explicado desta forma pode parecer que a patologia é fácil de controlar. Contudo, o aumento da pressão arterial pode causar danos nas artérias e em órgãos essenciais para o funcionamento normal do organismo.

Paulo Ferreira, coordenador de Medicina Interna do Hospital Trofa Saúde Braga Centro, explica que a hipertensão arterial se trata de uma doença grave, que tem vindo a crescer em Portugal - um terço da população tem esta patologia - e na Europa, onde afeta cerca de 30 a 45% da população. É uma “doença silenciosa”, visto que “a maioria dos doentes não apresenta queixas, sobretudo nos primeiros anos da doença, o que aumenta o seu perigo”, explica o médico.

QUE RISCOS PODE TER?
Esta doença pode ser fatal quando não é diagnosticada ou controlada e pode propiciar o desenvolvimento de outras patologias, como a insuficiência cardíaca, os acidentes vasculares cerebrais (AVC), o enfarte do miocárdio, a insuficiência renal, a perda gradual de visão, a esclerose das artérias, entre outras.

“O problema da hipertensão arterial, não é a doença em si, mas sim o que vai causar, nomeadamente, as chamadas lesões de órgão alvo. A hipertensão, aos poucos, vai trazer problemas; pode causar cegueira, insuficiência renal crónica. Aliás, a maior parte dos doentes que faz diálise é devido à hipertensão ou à diabetes.”

COMO DIAGNOSTICAR A DOENÇA?
João Borges descobriu a doença quando começou a sentir dores de cabeça fortes e os olhos a latejar, no entanto, existem outros sinais que merecem a atenção da população. Entre eles, as tonturas, a visão desfocada, dor no peito ou sensação de falta de ar, mal-estar difuso, sintomas estes que são comumente associados a outras doenças.

Para dificultar a tarefa dos médicos, esta doença pode cursar sem qualquer queixa, e por isso, Paulo Ferreira alerta que a tensão arterial deve ser medida regularmente. Dos mais de dois milhões de portugueses afetados, apenas 50% sabe que sofre da doença, só 25% estão medicados e apenas 11% têm a tensão efetivamente controlada, segundo os dados da Fundação Portuguesa de Cardiologia.

Por isso, é fundamental medir com frequência a tensão arterial. Se teve uma discussão, ou foi a um jogo de futebol, é normal que as tensões possam estar mais elevadas, por isso, deve fazer mais do que uma medição. Se sentir algum destes sintomas, associados a uma elevada tensão arterial, consulte o médico para conseguir perceber se, de facto, pode ser hipertenso.

COMO PREVENIR?
O primeiro passo é adotar um estilo de vida saudável. Para isso, deve ter bons hábitos alimentares, reduzir o consumo de sal, fazer exercício físico regularmente, deixar o tabaco e ter atenção ao consumo de bebidas alcoólicas.

No caso de João, o próprio admite que o seu estilo de vida fez com que se tornasse hipertenso.

“Sempre gostei de comidas bastante apuradas, sempre tomei muito café, apesar de não fumar, nem cometer excessos com o álcool. Tinha uma vida muito sedentária também”, conta.

As alterações efetivas do estilo de vida podem ser suficientes para prevenir ou até atrasar a necessidade de tomar medicação nos doentes que se encontram no primeiro grau da patologia.

“É a primeira etapa do tratamento, e acaba por ser a principal: adotar um estilo de vida e alimentação saudáveis. Os valores de sal recomendados devem ser menos de cinco gramas por dia e, em Portugal, em média, há um consumo superior a dez gramas.”, alerta Paulo Ferreira.

E, se fosse agora, João mudaria o seu estilo de vida?

“Mudava, apesar de viver bem com esta doença, tenho é que ter controlo como agora estou a ter. Agora as minhas tensões andam sempre controladinhas, porque tomo a medicação, fujo das comidas muito apuradas e já só tomo dois cafés por dia.”

DEVE HAVER UM REFORÇO DE ATENÇÃO A PARTIR DE DETERMINADA IDADE?
“É importante as pessoas não terem a ideia que a hipertensão arterial está associada a pessoas idosas. Há pessoas que podem ter 20 anos e sofrer de hipertensão”, começa por responder Paulo Ferreira.

“Isto porque, há causas secundárias de hipertensão arterial, como problemas da tiroide, ou outros problemas hormonais. Pode também haver problemas dos próprios rins, nos vasos dos rins; ou noutros vasos sanguineos”, continua. Alerta ainda para a apneia do sono, que é também uma causa secundária da hipertensão, que muitas vezes passa despercebida.

HÁ UMA TENDÊNCIA PARA QUE, CADA VEZ MAIS, SURJAM NOVOS CASOS DE HIPERTENSÃO?
A tendência é para aumentar, quer a hipertensão arterial, quer a diabetes.

“A vida que as pessoas levam é uma vida sedentária, baseada na comida fast-food, rica em gorduras e em sal. A sociedade onde nós estamos cria uma predisposição para que as pessoas se tornem bombas-relógio. A pessoa mentalizar-se disso, procurar mudar isso, é o maior passo para controlar a hipertensão. Mas também sabemos que o mais difícil é sempre mudar o estilo de vida, é mais fácil tomar um comprimido”,

SE O MEU PAI TIVER HIPERTENSÃO, VOU TER UM MAIOR RISCO DE SER HIPERTENSA?
“Pode haver”, segundo explica o médico, “porque, inclusive o pai pode ter uma causa secundária de hipertensão que passou despercebida, dado que a hipertensão, quando é diagnosticada a partir de determinadas idades, muitas vezes, já não é feita a investigação de causa secundária, e pode haver. Podem também haver causas genéticas, mas, em geral, são mais raras as situações em que é feito um estudo genético.”

NOVAS LINHAS DE TRATAMENTO
A medicina vai sempre evoluindo, como diz Paulo Ferreira. E o que há um ou há dois anos era o mais indicado, agora pode já não ser. Em 2018, a Sociedade Europeia de Hipertensão e a Sociedade Europeia de Cardiologia fizeram um documento que abrangem algumas alterações no tratamento da doença.

Por exemplo, hoje em dia, foi introduzido o conceito de que deve ser feito uma utilização mais alargada da medição MAPA (Monitorização Ambulatória da Pressão Arterial), um dispositivo que se coloca no braço e permite avaliar a tensão durante 24 horas, permitindo uma análise ao detalhe da doença, e do AMPA (Auto-Medição da Pressão Arterial), que consiste na monitorização da pressão arterial em casa durante, pelo menos três dias, com leituras de manhã e ao final da tarde.

Também foram introduzidas algumas alterações a nível dos fármacos. Surgiram ainda novos valores para a pressão arterial nos doentes tratados para melhor identificar a pressão arterial alvo recomendada e para diminuir os limites de segurança da pressão arterial tratada, de acordo com a idade e as doenças específicas do doente. Passou a haver indicação para um tratamento menos conservador da pressão arterial nos doentes idosos e muito idosos. É recomendado que o tratamento nunca deve ser negado ou suspenso com base na idade, desde que seja tolerado.

Estas novas linhas de tratamento serão abordadas na 1.ª edição das Jornadas de Medicina Interna dos Hospitais Trofa Saúde do Minho, que tem como tema "Revisitando as Guidelines", agendada para dia 19 de outubro, no Hospital Trofa Saúde Braga Centro, na rua do Raio. O evento, que é apoiado pela Sociedade Portuguesa de Medicina Interna, Ordem dos Médicos e Escola de Medicina da Universidade do Minho, é aberto a todos os médicos e estudantes de Medicina.

FFONTE:Ana Luísa Monteiro/SIC NOTÍCIAS

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