Os Açores chegaram a ter 40 unidades de transformação de chá desde a introdução da cultura, no século XIX, restando atualmente apenas duas, revelou o investigador Mário Moura, autor de um livro sobre este produto milenar.

O responsável pela obra “História do Chá em São Miguel (século XIX)”, que resulta de uma tese de doutoramento, salvaguarda que os Açores “nunca possuíram grandes unidades de transformação”, comparando com as que existiam em Moçambique ou na Índia, por exemplo.

Contudo, o historiador refere que a presença daquelas unidades de transformação em todos os concelhos de São Miguel foi uma realidade, de forma particular na Ribeira Grande.

A única exceção era Vila Franca do Campo, onde apenas havia produção caseira de chá.

Atualmente, apenas persistem na ilha de São Miguel duas unidades de transformação de chá, localizadas no concelho da Ribeira Grande: Porto Formoso e Gorreana.

Segundo Mário Moura, em São Miguel, só a partir dos anos 1970 se consegue produzir chá “com sucesso”, graças a proprietários como Ernesto do Canto, os irmãos André e José Jácome e através da contratação de dois chineses pela Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense (SPAM).

Mas foi, “seguramente por via de uma segunda vaga” protagonizada por Ernesto do Canto, que recrutou outros dois chineses de Macau ( Chon Sem e Lan Sam), que se assiste ao arranque da atividade.

Chegados a Ponta Delgada, em 08 de dezembro de 1891, Lan Sam e Chon Sem foram contratados como manipuladores de chá e, para Mário Moura, é a partir dessa altura que tem início o arranque decisivo da produção de São Miguel, através da exportação e venda local.

O historiador considera “ser errado” afirmar que o chá veio para substituir o ciclo da laranja nos Açores, uma vez que esta era “mais uma fonte de rendimento” a par de outras culturas como o tabaco e o ananás, que já se exportava.

Com o chá, Mário Moura afirma que se ocupavam “terrenos pobres que eram utilizados de forma residual por outros produtos agrícolas”, salvaguardando que “a laranja, apesar da sua produção ter diminuído, continuou”.

Para o investigador, em termos económicos, “talvez seja mais interessante” explorar o chá nos dias de hoje, por via da qualidade em detrimento da quantidade, como se tratasse de uma “espécie de champanhe”, que se “vende bem e a bom preço”, por exemplo na Alemanha.

As únicas produções de chá existentes estão concentradas junto às duas unidades que resistiram, que se tornaram num ponto de atração turística, concentrando milhares de pessoas num espaço onde é possível saborear o produto a título gratuito.

Nos últimos tempos, o Governo dos Açores tem vindo a desenvolver um projeto com recurso a chá branco dos Açores, na variante Índia, na ilha de São Miguel, que visa contribuir para diversificar a agricultura da região.