O autor e empreendedor esteve em Lisboa a alertar para os perigos da revolução digital.

Sem papas na língua, de ar decidido, Andrew Keen tomou o palco do Lisbon Investment Summit, esta quinta-feira em Lisboa, para traçar um cenário negro sobre o atual estado do avanço tecnológico no mundo. Crítico aberto da chamada revolução digital, o escritor e empreendedor, de nacionalidade norte-americana e britânica, foi o cabeça de cartaz do primeiro dia do evento.

 “Estava a ouvir o vosso Secretário de Estado a falar e realmente o que Portugal fez na época dos descobrimentos foi incrível. Vocês foram um dos pioneiros da globalização”, afirmou, referindo-se ao discurso do João Torres, Secretário de Estado da Defesa do Consumidor, que falou antes dele.

“Só que, para além dos feitos heroicos, há também um lado negro dessa história: o do colonialismo, da escravidão, da exploração, da guerra das colónias. Gostem ou não, é assim a realidade. Todas as transformações combinam o melhor e o pior do ser humano. E com a revolução tecnológica é igual”.

 Na década de 90, Andrew Keen fundou o Audicafe, um sistema integrado de entretenimento que permite ouvir música em todas as divisões da casa, incluindo no exterior. Sediado em Silicon Valley, recebeu financiamento para o projeto de empresas como a Intel e a SAP. “A minha ideia era igual à de qualquer empreendedor: fazer dinheiro e mudar o mundo para melhor”, conta.

 “Só que nos anos 90, a internet estava a começar e todos nós achávamos que ia ser algo de incrível, que ia destacar o melhor da condição humana, dando força aos pequenos empresários, reforçando a democracia. Estávamos a criar uma rede global e civilizada. Hoje, cerca de 20 anos depois, vejo que falhámos redondamente”. Quando questionou a plateia da sala, lotada, a maioria das pessoas parecia concordar com ele.

 “O que se passa é que a tecnologia está moldar-nos em vez de sermos nós a moldá-la a ela”, sublinhou. O escritor deu o exemplo das grandes tecnológicas, as multinacionais de muitos milhões que são quem dominam o mundo atualmente e recebem uma fatia enorme de todo o dinheiro disponível atualmente.

 “É a cultura do «vencedor leva tudo». A tecnologia acentuou todas as desigualdades. Vejam o caso da Uber. Em São Francisco os mais ricos já nem se dão ao trabalho de ter carro, usam Uber para todo o lado. Mas o dinheiro vai para a companhia. Os motoristas recebem abaixo do ordenado mínimo e muitos são obrigados a viver nos seus carros. Esta ideia da economia partilhada assenta em tudo menos na partilha,” explicou.

A democracia tem sido, para Andrew Keen, uma das principais lesadas do avanço tecnológico.

“As campanhas eleitorais são adulteradas, há fake news por todo o lado e bots russos a controlar o que fazemos, como se o mundo pertencesse a Putin e aos seus minions”. De novo, o escritor reforçou a culpa de empresas como Apple, Amazon, Google ou Facebook. “Se as pessoas pagam por comida e roupa, porque não pagar também por tecnologia? Pensavam que usavam o Google e o Facebook à borla? Estão a pagar com a vossa identidade. Estas plataformas espiam tudo o que fazemos. Sabem mais de nós do que nós próprios.” How to fix the future Na sua mais recente obra “How to fix the future” (sem tradução para português), lançada no ano passado, Andrew Keen apresentou as soluções para este problema. Partilhou-as com a plateia do Lisbon Investment Summit.

“Para começar é precisa legislação. Os gigantes de Silicon Valley venceram pela falta de leis neste setor”, explicou o autor, sublinhando que a Europa tem sido pioneira nesta matéria.

 “O trabalho de Margrethe Vestager tem sido incrível e a lei da proteção de dados, não sendo perfeita, é um bom começo. E os EUA estão a seguir os passos dos europeus. Atualmente, quase todos os dias vemos no New York Times histórias de pequenos governos a multar as grandes tecnológicas”.

Depois, falando para os investidores e empreendedores da plateia, pediu-lhes responsabilidade. “Temos que aprender com o caso Zuckerberg, que é um mentiroso em série. Não há mal nenhum em querer ganhar dinheiro, mas não precisamos de alienar o mundo. Ter milhares de milhões é bom, mas ter só alguns milhões também é bastante porreiro.

” A solução também passa pela inovação e pelo envolvimento dos cidadãos, acredita Keen. Mas muito importante, referiu, é também a educação. “O sistema educativo atual é feito de cima para baixo, a favorecer a globalização mas não o pensamento individual. Não precisamos de pôr todos os miúdos a aprender programação. Temos é de lhes estimular a criatividade”, concluiu.

FONTE: DINHEIRO VIVO/Marta Velho