Num universo de aproximadamente 55 mil habitantes, que constituem a ilha terceira, o concelho da Praia da Vitória tem cerca de 25 mil e é um importante impulsionador da ilha e do arquipélago, o que muito se deve ao facto de ter passado por uma considerável transformação nos últimos dez anos.

Por esta razão e pela diversidade turística, tanto para quem aprecia mais o verde das enseadas, como para quem prefere o azul do mar, ou mesmo a simbiose de ambos, é de extrema importância fazermos uma reflexão sobre o que mudou na cidade e como está a ser dinamizada atualmente.

Falámos com o presidente da Câmara Municipal, Roberto Monteiro, que nos abriu as portas à cidade da Praia da Vitória, que o viu nascer e que tem, neste momento, a seu cargo mandatário, além de assumir a presidência da Associação de Municípios da RAA e, ainda, da Confederação dos Municípios Ultraperiféricos da Europa.

Começa por explicar que, na última década, houve uma capacidade de se aproveitar fundos comunitários, o que deu azo a que projetassem uma cidade, com cabeça, tronco e membros. Nas palavras de Roberto Monteiro, “moldámo-la, dividindo toda a Praia da Vitória em quarteirões e concentramos em cada um deles, uma temática”.

O presidente chama a atenção para o ordenamento urbanístico da cidade, como uma forma de rentabilizá-la, tanto no que diz respeito tanto ao turismo, como em termos sociais.

“Na zona de expansão, no noroeste da cidade, quase 90 por cento da população escolar está concentrada em apenas um quilómetro quadrado, o que permite criar sinergias enormes, tais como partilhas de diversos equipamentos, como refeitórios ou piscinas, o que evita investir-se a dobrar”.

Esta realidade é única, visto que quase nenhum concelho segue este modelo. Realça, não obstante, que a estratégia educativa também fica a ganhar com uma coordenação de cursos, tanto do ensino regular como do profissional, tudo no mesmo espaço.

Outro dos quarteirões é inteiramente vocacionado para infraestruturas desportivas, munido com pavilhões preparados para provas nacionais, das mais diversas modalidades. “Não é por acaso que um concelho com esta dimensão tem duas equipas a disputar campeonatos nacionais, tendo mais de 500 jovens a praticar a primeira voleibol e mais de 300 no ténis de mesa”.

Porém, esta vantagem não se fica pelos terceirenses. Na baía, há provas de todas as modalidades de campeonatos do mundo, como de surf ou windsurf. “Estamos, ainda, a arrancar com projeto de centro de estágios e treino, para utilização no inverno, para grandes atletas mundiais que não podem praticá-la onde vivem, porque temos a vantagem do nosso clima ameno”.

De acordo com o presidente, a componente mais visível é o litoral, onde desenharam um modelo como não há quase nenhum outro lugar: um paul, acreditado e reconhecido, no centro da cidade. Neste ecossistema, podemos encontrar um lago com um misto de água salgada e água doce. Para melhor ilustrar, Roberto Monteiro refere-se a ele como “quase um Central Park”. É uma zona húmida, semelhante a um pântano, onde há oito anos atrás se acumulava lixo, que se situa mesmo ao nível do mar, chegando mesmo em alguns locais a estar a um nível inferior ao do mar, onde abunda a fauna e a flora.

Projetaram uma marginal ao longo de toda a baía. No entretanto, foram-se deparando com uma situação problemática, aquando do aparecimento de hotéis à volta, a zona do centro histórico ter “esvaziado”. O presidente confessa, “é o que os nos tem trazido mais desafios para resolver. A zona das escolas concentrou muitas empresas”. Com o objetivo de voltar a reanimá-la, “deslocalizamos para lá um conjunto de serviços públicos que fossem atrativos, como as finanças ou a delegação da RTP da Terceira ser cá”, partilha Roberto Monteiro.

Projetos e atrações turísticas

Neste momento, têm uma parceria com uma empresa dedicada ao mergulho e à recuperação naval, sobretudo subaquática, tendo investidores nesse sentido. Tal como o presidente afirma: “a baía é a nossa galinha dos ovos de ouro”.

A Praia da Vitória tem uma vantagem com a qual ultrapassa todas as ilhas, a capacidade que para estacionamento de barcos na marina, no extremo este da ilha, protegida pela baía. Há uma capacidade, aliás, cinco vezes maior e nenhuma nos Açores tem esta grandeza, “sobretudo a funcionar bem no inverno”, explica Roberto Monteiro.

“Uma realidade pequena como a nossa não pode depender só do turismo, como as canárias ou a Madeira, nem só da agro-pecurária, temos que ter outras alavancas, e temos que criar neste momento empregos com base na maior pérola que temos que é o mar.” Deixa a questão: “vocês sabem que o aumento da plataforma marítima portuguesa se deve aos Açores e que a maior do mundo é a portuguesa? E não está a gerar riqueza, é necessário ter uma estratégia para o mar. Temos custos muito altos de logística, não podemos descuidar nenhum nicho. Nós podemos desempenhar um importantíssimo papel de logística.”

Com seis unidades hoteleiras, premiadas anualmente, a aposta na qualidade em detrimento da quantidade é notória. Apesar deste lema, outro dos projetos que pode incentivar visitantes, são os nove trilhos certificados que “têm tido uma procura impressionante, principalmente, pelos turistas do norte da europa”, afirma o nosso interlocutor. Neste caso há uma grande quantidade, onde pode ter o prazer de ver todas os coloridos impérios, como é o caso da imperdível Igreja Matriz da Praia da Vitória.

A procura dos trilhos pedestres também passa pela população local, muito participativa. Onde se pode verificar esse aspeto que tão bem carateriza o dinamismo da região, é na Academia da Juventude e das Artes. “Nesta ilha um em cada três pessoas representa ou toca um instrumento musical. Isto não existe noutro local. Pode ser de qualquer faixa etária ou profissão. Marcos profundos que têm de ser uma identidade e potenciados param o turismo.”

Por outro lado, “temos o Museu do Carnaval que é único”, esclarece listando todo um amplo leque de oportunidades culturais e de entretenimento que a Praia da Vitória e a ilha oferecem. “Nós vemos o Carnaval como o de Viena, o que só acontece aqui na Terceira.”

Roberto Monteiro explica que o que têm feito para exponenciar o turismo não está a destruir a biodiversidade e esfera. Este é o que de melhor o arquipélago apresenta, é um nicho, e é exatamente com a temática dos nichos de mercado que esta conversa terminou. A importância de ter um produto claramente distintivo e competitivo de preferência mundialmente é, de facto, fulcral na conjuntura pela qual passamos.

Ao explicar que trabalha com associações agrícolas e que as câmaras das ilhas têm que ter um papel ativo na dinamização das empresas e ser até ministérios da economia, o presidente da câmara explica que “continuamos a ver muitas vacas em serrados, porque efetivamente uma agricultura certificada pela natureza é um slogan estratégico. Promovemos o primeiro mercado exclusivamente de produtos biológicos, certificados, e só no primeiro ano o número de produtores passou de 10 para 78”. Na opinião do presidente, “a raiz do problema foi atacado, que era criar um local de comercialização que desse o valor acrescentado do produto. Ao apostar no biológico sai mais caro do que no convencional. Se for tudo vendido ao mesmo preço, o produtor fica desencorajado de ir por esse caminho, mas só vencemos nos grandes mercados de exportação tendo um produto biológico e certificado pela natureza. Aliás, essa conjunção, ainda mais valor acrescenta e permite ter produtos para colocar em qualquer mercado do mundo”.

Eventos

Na época alta, decorrem as festas concelhias, as chamadas Festas da Praia da Vitória, em que um dos eventos de destaque é o Blue Music Resort que agrega, não só a componente dance music, das maiores do país pelo número de dias e horas de djing, mas também um programa de concertos musicais com nomes internacionais e nacionais. São dez dias consecutivos com quatro palcos a funcionar em simultâneo. Um deles é dedicado às tradições, como as cantigas, o fado, o folclore e disputas de filarmónicas. Noutro podemos assistir à multiculturalidade e ouvir músicas do mundo, desde celta à cubana, cada dia comemorando-se um tipo de música diferente. É um evento que chama muitas pessoas. “A ilha tem 56 mil habitantes e nós temos todas as noites nessa altura 46 mil. Temos sempre cerca de cinco voos diários, uns diretamente dos EUA e Canadá. Este evento está a sempre vendido, tem que se marcar um hotel um ano antes“.

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